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Em Arquitetura Inclusiva (veja mais 54 artigos nesta área)

por Arq. Dra. Sandra Perito

A arquitetura como instrumento de inclusão social



Os progressos da medicina têm permitido que cada vez mais pessoas tenham a vida prolongada, acarretando uma profunda mudança no perfil demográfico da sociedade brasileira: pessoas idosas representam, hoje, uma significativa parcela da população.

Todavia, mesmo com todo o desenvolvimento tecnológico, dificilmente se poderá acabar com todas as disfunções orgânicas decorrentes do envelhecimento.

Com o avançar da idade, o tempo de permanência e uso da habitação tornam-se cada vez mais intensos; ao mesmo tempo, as pessoas mais velhas continuam tendo a necessidade de participar em convívio social a que estão habituadas. Seu isolamento, sob qualquer ótica, é pernicioso, sendo responsável, muitas vezes, por quadros de depressão, desesperança e dependência facilmente verificáveis em núcleos destinados a abrigar idosos.

O desejo máximo do brasileiro está na aquisição da casa própria, bem maior que as pessoas almejam e, na grande parte dos casos, o de maior valor que adquirem ao longo da vida.

Em vista disso, é o bem que requer mais tempo e esforço para ser adquirido e, portanto, a satisfação com esse “produto” deveria ser total. Porém, não é assim que acontece, na grande maioria das vezes essa aquisição é baseada no custo, ficando os aspectos de qualidade, durabilidade, adequabilidade e conforto relegados a segundo plano.

É característica do brasileiro considerar a casa para a vida toda, principalmente entre os idosos, que têm pouca opção de mudança. A idade avançada traz consigo um vínculo muito forte com a moradia, principalmente quando não se tem perspectiva de aquisição de outro imóvel.

No Brasil, país com sérios problemas de distribuição de renda, a maioria da população tem baixos rendimentos, o que gera uma violência urbana bastante acentuada. As classes sociais mais baixas são as maiores vítimas dessa violência que, muitas vezes, resulta em limitações físicas graves, principalmente nos adolescentes e jovens adultos. Também as classes menos favorecidas têm baixíssima mobilidade residencial e, após a conquista da casa própria, se ela ocorre, é nela que viverão o resto da vida, quaisquer que sejam as circunstâncias.

As políticas nacionais de financiamento de moradia, geralmente de longos prazos e com contratos de difícil transferência, também influenciam na permanência prolongada na mesma habitação, fixando os indivíduos aos imóveis por muitos anos.

A habitação, nos moldes tradicionais, não considera as alterações que podem ocorrer ao longo da vida do homem, o que pode gerar um descompasso no seu uso. Projetos habitacionais geralmente não abordam, de forma sistemática, o uso futuro pelos moradores.

A estrutura da sociedade é um fluxo em constante mudança. O que se espera de uma casa hoje é diferente do que se esperava há cinqüenta anos atrás. Atualmente as pessoas buscam maior flexibilidade e capacidade do ambiente em adaptar-se às condições que se alteram, como uma mudança na estrutura familiar, uma deficiência temporária ou permanente, uma limitação do usuário do ambiente construído.

O crescente déficit habitacional brasileiro é uma realidade indiscutível bem como o envelhecimento da população. É necessário que os órgãos competentes continuem fomentando e aprimorando soluções e leis habitacionais, mas é também indispensável que a classe técnica não se omita no sentido de propor soluções adequadas, dignas e economicamente viáveis para as moradias, considerando todo o ciclo de vida dos usuários. Os novos programas habitacionais devem se adequar a essa nova realidade.

Uma arquitetura inclusiva garante ambientes apropriados, não só para idosos ou pessoas portadoras de deficiência, mas para todos.

Quando se planeja um empreendimento, a questão do custo da construção é inevitável. Todavia, projetar incorporando características universais ou adaptáveis ao conceito de projeto, desde o início, normalmente gera pouco custo adicional à obra, por permitir que especificidades sejam adicionadas apenas quando necessárias.

Além disso, todos os custos devem ser considerados: econômicos, estéticos, funcionais e humanos, além do custo social de se ignorar grande e importante parcela da população, os baixa renda e os idosos.

Os projetos de habitação devem caminhar em direção a uma arquitetura universal, preocupada com o futuro e o bem-estar do usuário, e que se adapte às mudanças decorrentes do passar dos anos.

Se aplicadas desde o projeto, a acessibilidade e a adaptabilidade não serão escondidas e nem caras, e seus aspectos estarão fundidos no conceito arquitetônico do edifício.

Projetos residenciais adaptáveis, que considerem as mudanças fisiológicas, físicas, sensoriais e psíquicas do homem, em todas as fases da vida, produzem boas soluções ambientais, livres de estereótipos e capazes de aumentar a autonomia e independência do usuário.

E os arquitetos devem estar atentos à sua responsabilidade social, propondo edificações que considerem a diversidade humana e que garantam melhor qualidade de vida a todas as pessoas.

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