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Em Exercício Profissional (veja mais 146 artigos nesta área)

por Arqº Edison Ferreira Pratini

A delicada relação cliente-arquiteto



Finalmente você decidiu ou conseguiu recursos para realizar o sonho: a construção da sua casa, feita sob medida para as suas necessidades. Mas como ela será? Qual será a distribuição dos ambientes? E a fachada? Que estilo terá? As perguntas vão se acumulando até que você decide procurar um arquiteto. Aquele que será o “seu” arquiteto.


O arquiteto, tal como o terapeuta, é um profissional que lida com os sonhos, os desejos e as emoções das pessoas. No caso do cliente do arquiteto, tudo pode ser fruto, por exemplo, de uma mistura de desejo ou do reflexo de um determinado estilo de vida, do sonho de um refúgio que proporcione aconchego, de lembranças de ambientes ou de fantasias de infância, da adolescência ou quaisquer outras que possam povoa nossa mente.

Desse contato cliente/arquiteto nasce uma relação que pode se transformar numa grande amizade ou numa retumbante frustração. Depende muito da comunicação, da confiança e, principalmente, da empatia que existir entre ambos. O arquiteto é o intérprete dos desejos do cliente. É quem deverá, à sua maneira, responder aos sonhos e dar forma àquela imagem, às vezes nebulosa e confusa, do que será a obra final. Uma obra que deverá perdurar para além da sua vida e que, de qualquer forma, estará presente por muitos anos. Daí a necessidade de empatia, da comunicação e da confiança.

A construção da casa de uma família não é uma tarefa fácil para ambos, família e arquiteto. É um processo* no qual vêm à tona muitos daqueles sonhos, desejos e fantasias que, muitas vezes, são conflitantes entre os próprios membros da família e que acabam criando discórdias sérias. É um processo às vezes sofrido e a relação, delicada, especialmente se for a primeira experiência do cliente com a construção e com um arquiteto e/ou vice-versa. O arquiteto tem que entender a relação e saber gerenciar esse processo sob pena de fracasso na empreitada.

É necessário tomar cuidado com a bagagem de desinformação e preconceito de alguns clientes, que têm uma visão deformada da atuação do arquiteto, interferindo na relação com o profissional e no resultado que se obtém. É comum, por exemplo, a confusão entre a atuação do engenheiro e a do arquiteto. Ou a afirmativa errônea de que o arquiteto só projeta e o engenheiro calcula e constrói.

A maior parte da população desconhece o trabalho do arquiteto, pensa que ele é um profissional caro. Quanto cobra um arquiteto? Não sei, mas é caro, é a afirmação. No entanto, os custos de um projeto residencial são, na maioria das vezes, menores do que a comissão de corretagem na venda de um imóvel equivalente já construído.

Os preconceitos vão mais além, como o pensamento de que o arquiteto buscará impor o seu próprio gosto e que, se o cliente não se agradar da concepção, ficará ofendido e que o cliente terá uma despesa dobrada para a troca do profissional. Numa variante, há o pensamento de que o arquiteto fará um projeto maravilhoso, mas de construção cara. Ou, ainda pior, às vezes problemático, ou inexeqüível.

A história da profissão tem muitos exemplos de relações mal sucedidas onde isso realmente acontece. São arquitetos que não foram sensíveis aos sonhos e necessidades dos clientes, ou que descuidaram dos detalhes técnicos de construção ou dos detalhes práticos do dia-a-dia: acontece, por exemplo, de juntas, esquadrias ou painéis de vidro mal ou não resolvidos que deixam vazar água da chuva, floreiras inacessíveis e outros detalhes de difícil manutenção e limpeza, entre outros tantos problemas que costumam aparecer numa construção. É necessário lembrar que maus profissionais existem, e em todas as profissões.

Um bom profissional cuidará de todos os detalhes, fará um projeto adequado, belo e econômico, será um defensor e um verdadeiro policial do dinheiro do cliente.

Do outro lado do projeto frustrado, existem os clientes que não conseguiram transmitir um mínimo dos seus sonhos para ser interpretado. Nesses casos, muitas vezes existe a mistificação do profissional: o arquiteto é colocado num pedestal como um ser iluminado, dono da verdade sobre o belo e o esteticamente correto. “Como eu vou mostrar ou manifestar tal desejo para um arquiteto?”. Então surge o medo irracional e injustificado de um julgamento estético sumário: isto é feio. O cliente treme diante da perspectiva de um juízo que, no seu entender, irá colocá-lo no rol dos mortais de mau-gosto. Pior quando o próprio arquiteto ajuda a reforçar essa imagem de semideus.

Existem ainda aqueles clientes que interferem e desfiguram um projeto na execução. Existem os que têm resultados caros e/ou desastrosos porque aceitam interferências incabíveis de um mestre de obras, desacreditando ou não consultando o arquiteto sobre questões de projeto no canteiro de obras. Existem os que querem impor idéias pré-concebidas e não deixam o arquiteto agir como um profissional de criação e aconselhamento que é.

Normalmente, o arquiteto sabe identificar o cliente impertinente, por demais desconfiado, fechado ou preconceituoso, ou aquele que irá perturbar e interferir no trabalho de uma forma insuportável ou intolerável. Nesses casos, para seu próprio bem, deverá, polidamente, rejeitar o trabalho.

No entanto quando existe acerto na escolha do arquiteto, e o cliente está aberto para essa nova experiência da concepção e construção, a recompensa é uma satisfação para o resto da vida.

A descoberta da empatia e o estabelecimento dos laços de comunicação e confiança se dão já no primeiro contato, quando o arquiteto ouve um pouco dos desejos do cliente, descreve a sua forma de trabalho, dá uma idéia geral de custos, etc. Esse é o momento decisivo que dirá da validade de uma relação que pode durar muito mais do que os próximos poucos meses de trabalho no projeto e na construção da casa.

Caso não haja empatia, a comunicação seja difícil ou não se estabeleça um laço de confiança nesse primeiro encontro, o cliente não deve hesitar em procurar outro profissional. Às vezes, ótimos profissionais simplesmente não respondem àquilo que um cliente espera ou deseja, embora o façam para outros clientes. Questão de empatia.

Um arquiteto experiente, criterioso, atento, que inspire confiança, que saiba escutar e que pergunte mais do que afirme numa primeira entrevista é um bom candidato a estabelecer um ótimo relacionamento com o cliente potencial.

A não ser que o cliente tenha necessidades não usuais e deseje uma arquitetura menos convencional, a criatividade do arquiteto não deverá ser um item a ser considerado nesse momento. Arquitetos são treinados a responder criativamente aos problemas e um profissional experiente certamente terá uma solução criativa para mais este.

Além da empatia, a escolha do profissional pode depender de outras considerações tais como status, estilo ou custo. Arquitetos, como estilistas, podem cultivar um nome que significa status para os seus clientes. Os projetos de tais arquitetos costumam refletir unicamente a sua própria visão estética e de como habitar. O cliente será consultado com respeito às suas necessidades básicas de ambientes e deverá adaptar-se à concepção do arquiteto. Essas obras costumam ter um estilo claramente identificável e conhecido, e os clientes costumam aceitar, a priori, as idéias e indicações. Essas indicações podem ir desde a escolha de um terreno ideal, até a determinação de um estilo de decoração e dos objetos que a complementarão.

Do lado do cliente, existem aqueles que, mesmo sem um arquiteto de renome, preferem não se envolver minimamente com o projeto e a obra, deixando todas as decisões para o profissional contratado. Essas pessoas têm grandes chances de não verem satisfeitas as suas ambições de morar (sempre existem, mesmo que não sejam expressas) e de serem obrigadas a conviver com uma arquitetura que não é do seu agrado.

Por outro lado, a escolha de um profissional tendo em vista unicamente considerações sobre o custo do projeto costuma ser causa de muitas insatisfações. Com exceção dos profissionais de renome, o trabalho do arquiteto tem uma remuneração mais ou menos padronizada. Pressões para redução nos custos de projeto normalmente resultam apenas em redução dos serviços oferecidos, às vezes sem que o cliente se dê conta disso. São reduzidos, por exemplo, o número de detalhes, a quantidade de alternativas estudadas e outros benefícios que serão referidos adiante neste artigo. Um bom profissional deixará claro o que pode oferecer e o que será reduzido.

O ponto de partida de uma obra não se dá no escritório de um arquiteto. Ele geralmente acontece naquele momento em que se pensa seriamente em construir e que surgem as interrogações estéticas, econômicas e outras tantas. A partir daí, as pessoas tornam-se mais observadoras e atentas à arquitetura do seu entorno. Buscam informações e inspiração em revistas especializadas, indagam e até ensaiam um desenho do que lhes parece ser um bom começo para um projeto. São tentativas de se armar para vencer a insegurança de uma nova e iminente experiência.

É ainda num clima de certa insegurança, num misto de excitação e expectativa, que o cliente senta à frente do arquiteto para a primeira entrevista. Não raro traz um desenho em planta-baixa feito por um filho, parente, amigo ou por ele mesmo. Mais comumente, mune-se de revistas de arquitetura e decoração buscando mostrar os estilos e os ambientes que mais lhes agradam.

O arquiteto mais experiente não irá tomar essas atitudes como uma interferência no seu trabalho ou como uma afronta à sua criatividade. Ele entende que o cliente não quer uma colcha de retalhos (embora pareça) com o que está mostrando, mas que essa é a forma mais clara que ele tem de expressar, num primeiro momento, o seu gosto e os seus sonhos.

Na verdade, normalmente o cliente não sabe exatamente o que quer. Embora munido de revistas ou de algum eventual desenho, não tem uma idéia clara de como tudo aquilo pode se transformar numa obra coerente, adaptada às suas necessidades. Mesmo o que pensa sobre as suas necessidades é flexível em função de fatores como custo. Mais facilmente, sabe o que não quer: aquela cozinha apertada, a disputa pelos banheiros, o conflito com a música e o ruído dos filhos adolescentes, etc.

É natural que seja assim, e é por isso mesmo que ele se encontra frente-a-frente com o profissional que deverá orientá-lo e ajudá-lo na busca do que, na verdade, lhe é essencial e do que lhe é acessório, de como fazer para satisfazer todas as suas expectativas, num projeto personalizado, dentro da sua capacidade de gastos e endividamento.

Os primeiros contatos do cliente com o arquiteto são fundamentais. É neles que são dados os passos mais importantes para a definição do projeto.

A primeira informação solicitada pelo arquiteto, que servirá de base para todo o resto do processo, é uma lista de compartimentos ou ambientes que o cliente imagina para a casa. Esta lista será traduzida para “atividades” a serem exercidas na casa, numa outra lista que se chama “programa de necessidades”. O programa de necessidades é, então, discutido brevemente com o cliente buscando-se racionalizar o projeto, agrupando ou separando atividades espacialmente.

Com base nisso, o arquiteto pode ter uma idéia da área de construção necessária e dos custos de projeto e construção envolvidos.

No entanto, tão ou mais importante que a informação do número de compartimentos e as atividades, é a descrição da forma e estilo de vida do cliente, como a casa é e pretende ser utilizada, costumes, relações familiares, etc. Isso mostra, na maioria das vezes, as reais necessidades do cliente: a inutilidade de um salão de jogos que nunca será utilizado, ou de um escritório que está fadado a servir de depósito; a necessidade de um bar junto a uma piscina ou de uma sala de música; o sub ou super dimensionamento de um dormitório ou muitos outros exemplos comuns em projetos menos discutidos.

Após isso, o arquiteto pode lançar o que se chama “partido arquitetônico”, ou seja, um desenho da primeira idéia do que será a casa em termos de área, distribuição dos compartimentos, circulação e fluxos, etc. Uma vez discutido e ajustado, o partido, como o nome diz, serve de ponto de partida para o desenvolvimento do projeto final.

O partido arquitetônico pode ser ajustado, ainda, a traços de personalidade dos futuros moradores que ajudam a definir um estilo: uma arquitetura vazada, fluida, que extravasa para o exterior ou, ao contrário, intimista, voltada para o interior, uma obra que busca a solidez e a segurança, baseada no concreto, ou projetada com leveza, envidraçada, baseada na madeira? As alternativas vão-se excluindo ou justapondo à medida em que vão sendo identificados mais profundamente os traços dos estilos de vida.

Com base no partido arquitetônico vão-se desenvolvendo o estudo preliminar, ante-projeto, projeto, projeto executivo (para aprovação nos órgãos públicos), projetos complementares (elétrico, hidráulico, etc.) e, finalmente, detalhamento.

A remuneração do trabalho do arquiteto é calculada, normalmente, como um percentual do custo estimado da construção. Para isso existem tabelas que mostram os custos médios por metro quadrado de construção, para padrão alto, médio e baixo em cada região do país. Assim, como a economia estável, pode-se ter uma estimativa bastante real do custo de uma construção. O percentual referente ao trabalho do arquiteto é objeto de uma outra tabela dos órgãos de classe e varia de acordo com o serviço contratado.

A maciça informatização dos escritórios de arquitetura fez com que a geração dos desenhos de um projeto se tornasse mais rápida, mais integrada entre os profissionais envolvidos. Modificações ao longo do projeto são possíveis, mas são tratadas como alterações que vão onerar o custo inicial.

Um projeto rico no detalhamento, por exemplo, reduz ao mínimo os problemas e improvisações no canteiro de obras. Um projeto bem especificado, orçado e detalhado evita gastos desnecessários e desperdício dos materiais construtivos. Existe, portanto, uma boa razão para serem contratados os serviços adicionais às plantas básicas de aprovação nas prefeituras: a economia, o controle sobre a construção, a qualidade e beleza da arquitetura e a satisfação plena do cliente.

Os custos de um projeto sempre podem ser negociados. O arquiteto poderá avaliar a complexidade de um determinado trabalho e ajustar o seu preço de acordo com ela: uma casa rústica de praia exigirá menos do seu tempo do que uma residência nos Jardins, em São Paulo, com uma área equivalente.

Como já foi dito, reduções de custos significam projetos mais simples. Existem clientes que buscam profissionais para a elaboração apenas das plantas necessárias para aprovação nos órgãos oficiais. São daquelas pessoas que confundem e desconhecem a atuação do arquiteto e não tratam a sua obra como um projeto de arquitetura, mas como um projeto de construção.

Disso se aproveitam os “projetistas” de fundo de quintal. A disseminação do uso de computadores para a elaboração dos desenhos de arquitetura facilitou o aparecimento de “profissionais” que anunciam nos jornais a elaboração de “projetos” por computador a preços muito baixos. A maioria é composta de “desenhadores de plantas”, que copiam e adaptam plantas padronizadas, sem o conhecimento básico de obras arquitetônicas.

As nossas cidades são maciçamente povoadas dessas construções que as enfeiam e que atendem apenas minimamente às necessidades dos seus proprietários. Enganam-se os que pensam que são obras mais baratas do que as de um arquiteto. Na maioria das vezes, um arquiteto poderá projetar uma obra muito melhor, a um custo menor ou equivalente. A economia proporcionada pela eliminação do desperdício, pela escolha adequada e criteriosa dos materiais, pelo detalhamento que evita a quebra e reconstrução de partes mal resolvidas, pelo alívio, garantia de qualidade e tranqüilidade do proprietário, compensa os custos do projeto de um arquiteto.

Esse arquiteto, de quem o cliente se apropria como o “seu” arquiteto, é quem vai dar a solução para a casa sob medida, aquela obra que representa tudo o que o cliente sempre sonhou, que é o que ele mesmo teria feito, se soubesse como. Uma verdadeira “obra de arquiteto”.



Edison Pratini, é arquiteto, Doutor, Professor Adjunto da área de representação gráfica e tecnologias computacionais e pesquisador da Universidade de Brasília.



Fonte:www.iabdf.org.br



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