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por Arq. Fabio Rocha / Sílvia Rocha

Ouvir é preciso e precioso!



A poluição sonora é o efeito provocado pela difusão do som num tom demasiado alto, acima do tolerável pelos organismos vivos. Dependendo da sua intensidade, causa danos irreversíveis. Arquitetos e engenheiros especializados no assunto estudam a absorção do som e o isolamento sonoro nas edificações em geral, assim como nos projetos urbanísticos, para minimizar seus efeitos negativos, reduzindo, quando convém, sua propagação e reforçando-a quando necessário.

A poluição sonora ocorre quando num determinado ambiente o som altera a condição normal de audição. Embora não se acumule no meio ambiente, como outros tipos de poluições, ela causa vários danos ao corpo e à qualidade de vida das pessoas.

O ruído é o que mais colabora para a existência da poluição sonora. Ele pode ser de dois tipos: aéreo (aquele que atravessa portas, janelas, pisos, paredes e lajes) ou estrutural (aquele que vibra a estrutura). É provocado pelo som excessivo dos processos industriais, canteiros de obras, meios de transporte, áreas de recreação, shows musicais e espetáculos em geral, práticas de tiros, entre outras atividades. Esses ruídos causam efeitos negativos no sistema auditivo, além de provocar alterações comportamentais e orgânicas.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera que um som deve ficar em até 50 db (decibéis – unidade de medida do som) para não causar prejuízos ao ser humano. A partir de 50 db, os efeitos negativos começam. Alguns problemas podem ocorrer a curto prazo, outros levam anos para ser notados.

A Norma Brasileira (NBR) 10152 fixa os seguintes limites: para os escritórios, salas de reunião, 30-40dB; salas de gerência, salas de projetos e de administração, 35-45 dB; salas de computadores, 45-65 db; pavilhões fechados para espetáculos e atividades esportivas, 45-60; e para as residências os patamares aceitáveis são: dormitórios, 35-45 db; salas de estar, 40-50 db.

O Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama) baixou a Resolução 1/90, no dia 8 de março de 1990, determinando que “a emissão de ruídos, em decorrência de quaisquer atividades industriais, comerciais, sociais ou recreativas, inclusive as de propaganda política, obedecerá no interesse da saúde, do sossego público, aos padrões, critérios e diretrizes estabelecidas nesta Resolução”.

Porém, mesmo com a constante supervisão do Ministério do Trabalho no controle da poluição sonora dos ambientes profissionais, ou com as leis que favoreçam a tranquilidade residencial, verifica-se que a questão está muito longe de ser resolvida. Pelo contrário. O que vimos é o contínuo crescimento das regiões já inundadas por todo tipo de poluição.

Já em 1910, Robert Koch, médico alemão, nobel de medicina em 1905, profetizou: "Um dia a humanidade terá que lutar contra a poluição sonora, assim como lutamos contra o coléra e a peste". E Koch foi bastante assertivo, infelizmente.

As fontes naturais de emissão de ruído geralmente não causam poluição sonora, apenas mal-estar passageiro, dado o caráter intermitente ou ocasional do barulho emanado por elas (frequência curta no tempo, como o trovão). Já as fontes artificiais são geralmente as causadoras de poluição sonora, como ocorre com as emanações provindas das atividades humanas nas aglomerações urbanas, porque é pela intensidade e ininterrupção do barulho que o ouvido humano é molestado.

De modo geral, a poluição sonora ocorre quando, além de intenso, o ruído é ininterrupto, constante, algo a que o ouvido humano nunca se acostumará. Pode-se, por exemplo, dormir sob barulho intenso, mas o sono não será reparador das energias gastas, como é a conclusão da ciência médica.

Já do ruído intenso e prolongado ao qual o indivíduo se expõe resultam mudanças fisiológicas mais duradouras, até mesmo permanentes – incluindo desordens cardiovasculares, de ouvido-nariz-garganta, e, em menor grau, alterações sensíveis na secreção de hormônios, nas funções gástricas, físicas e cerebrais –, assim como distúrbios psicológicos.

Existem casos crônicos em trabalhadores expostos a ruído constante, sendo constatadas diversas reações do organismo, como náuseas, cefaleias, irritabilidade, instabilidade emocional, redução da libido, ansiedade, nervosismo, hipertensão, perda de apetite, insônia, aumento de prevalência da úlcera, fadiga, redução de produtividade, aumento dos número de acidentes.

As reações na esfera psíquica dependem das características de cada indivíduo, do meio e das condições emocionais do hospedeiro no momento da exposição. Para favorecer os ambientes internos, o isolamento sonoro (ou isolamento acústico) é outra ferramenta da qual os profissionais de arquitetura e engenharia lançam mão no momento de projetar espaços, comerciais ou residenciais.

Sendo um método empregado para reduzir (ou impedir) passagem de som de um ambiente para outro, vale-se do uso de diversos materiais, densos e/ou pesados, que consigam amortecer e dissipar a energia sonora: chapas metálicas, vidro, madeira maciça, parede de tijolo maciço, mantas de borracha etc. O controle da reverberação é feito por materiais absorventes, como: espuma acústica, lã mineral (vidro ou rocha), cortinas grossas, carpetes, entre outros.

Outra opção para aumentar o isolamento do som é criar uma sequência de obstáculos à propagação sonora. Por isso, paredes duplas, janelas com vidros duplos ou a combinação de materiais de diferentes densidades (porta de madeira com chapa de aço) são muito importantes para se ter um bom isolamento acústico.

Neste caso, é ainda importante fazer os diferentes elementos usados não se tocarem diretamente, usando sempre espumas, borrachas e o que for conveniente para anular a vibração. Pelo modo como o som se propaga, cuidado para não deixar nenhum tipo de fresta entre os fechamentos, pois isso pode prejudicar todo o conjunto. Portas e caixilhos devem ter atenção especial, devem se usadas também espumas e borrachas para garantir a estanqueidade do ambiente.

Em cada caso, é necessário antes avaliar, com muita atenção: o tipo de construção, os tipos de ruídos, em intensidade e frequência, a ligação entre construções ou ambientes; os tipos de materiais de acabamento e revestimento e, principalmente, quais são as atividades desempenhadas em cada local.

Segundo Schopenhauer (filósofo alemão do século XIX), “o ruído é o assassino do pensamento”, e assim acaba sendo paradoxal deparar com tanto barulho, principalmente nos grandes centros urbanos, corrompendo não só a saúde da população, como também a genialidade de intelectuais e executivos e afetando o bom entendimento entre as pessoas.

Lembremos sempre que ouvir é uma bênção e uma arte, que devemos praticar e preservar!


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